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Papéis Invertidos - Gabriel Dropout #2

Papéis Invertidos - Gabriel Dropout #2 .1
Quanto mais assisto essa saga fofinha de anjos e demônios adolescentes no plano terreno, mais percebo o quão criativos podem ser os japoneses.

Eles conseguiram criar, aqui, uma aventura de adolescentes que vivem sozinhas num cenário bastante convincente e, principalmente, com uma qualidade técnica de animação de qualidade. E ainda puseram papeis invertidos, intrigas, plot twists, metáforas a rodo e inveja alheia, mostrando que absolutamente qualquer pano de fundo pode ser usado para se criar um bom slice of life!

Não importa se a Terra está sendo invadida por marcianos (ou outras raças alienígenas) macabros, se robôs gigantes estão se digladiando até a morte pilotados por adolescentes, se uma guerra está prestes a eclodir num futuro pós-apocalíptico distante ou se uma colônia espacial foi estabelecida num planeta inóspito...


Em praticamente qualquer roteiro de anime existe brecha suficiente para o “modo de vida escolar japonês” - o faz das animações nipônicas não apenas um simples produto de entretenimento, mas também um dos meios de propaganda mais eficientes dessa cultura em extinção que é a japonesa.


Muitas dessas obras podem incluir, mas não se limitar, a: vida escolar, intrigas dentro e fora das salas de aulas, uma exposição demorada e sonolenta sobre como arrumar, limpar e organizar uma quitinete, como fazer compras sendo solteiro, como levar um ritmo de vida solitário sem entrar em depressão e, é claro, a cereja do bolo - como se relacionar "do jeito certo" com outras pessoas.


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Convenhamos, assim como qualquer filme enlatado de Hollywood (principalmente nos casos das histórias de super heróis da Marvel ou DC), onde um trapo de roteiro é recheado por camadas e mais camadas de patriotismo americano, referências ao perfeito “american way of life”, uma idolatria sem sentido ao “self made man” e baboseiras à respeito da suposta grandeza dos Estados Unidos, um bom anime japonês precisa servir ao propósito de catequizar seu público-alvo (os japoneses, é claro) e cimentar o status quo das instituições nipônicas.

Mesmo que um cachorro branco precise aparecer dentro de uma escola pública para roubar o Melon Pan da Satania (o que não faz sentido nenhum), apenas para os roteiristas não perderem a piada. 

O Maior Problema do Japão Atual Retratado em Anime


gabriel dropout 2 - gif

Convenhamos, se você nunca viveu no Japão, talvez seja difícil compreender certos aspectos do estilo de vida daqui. Eu sei que muitos já tiveram a oportunidade de visitar o arquipélago como turistas, e mesmo alguns brasileiros sortudos cresceram aqui, enquanto seus pais viviam a rotina maçante do trabalho interminável nas fábricas, mas o aspecto menos compreendido pelos brasileiros que se aventuram a opinar sobre Cultura Pop Japonesa na internet sejam as relações interpessoais entre japoneses.

Veja bem, eu sou um estrangeiro aqui. Nasci no Brasil, estudei durante a vida toda no Brasil, fiz faculdade no Brasil, e só depois dos 25 anos de idade que cheguei ao Japão para fazer intercâmbio numa Universidade Japonesa. Desde então, apesar de meus esforços para me adaptar ao modo de vida dos nipônicos, posso dizer que obtive sucesso em quase tudo, menos uma coisa: entender as interações sociais aqui.

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Como estrangeiro, não-descendente, sou sempre tratado como 外人 (gaijin), estrangeiro, um outsider,  uma persona de afuera (como sempre digo em meus vídeos), alguém que não tem obrigação nenhuma de se adaptar aos padrões locais. Seja para o lado ruim (preconceito, discriminação, xenofobia) ou no caso das coisas boas, nunca precisei me comportar como um japonês. Seja no dia-a-dia, na rua, na faculdade ou até mesmo no trabalho, jamais precisei me sujeitar a certas coisas, como os japoneses precisam.

Sempre fui tratado de maneira diferente. E isso é o pior que podia acontecer.

De certo modo, algumas coisas são "mais fáceis" para mim do que são, inclusive, para os próprios japoneses. Não preciso seguir certas etiquetas sociais, não recebo o mesmo nível de cobrança, não sinto a pressão que eles sentem e não sofro dos transtornos psíquicos de solidão, falta de perspectiva e baixa auto-estima que muitos nipônicos sentem.

Talvez por isso eu observe certas obras "formativas" como Gabriel Dropout e consiga tirar dali situações engraçadas, interessantes, e talvez por isso também que algumas cenas não 'batem fundo' na minha alma. Por exemplo, enquanto nossas protagonistas discutem preferências culinárias de homens solteiros - como se isso fosse extremamente importante - só uma coisa passava pela minha cabeça: “nada faz sentido nesse anime”.

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E se eu, que moro aqui a quase cinco anos, estudo a língua e os costumes japoneses a mais de oito anos, não vejo sentido em certas coisas... Não vai ser aquele "produtor de conteúdo" brasileiro que mal terminou a quarta série, que nunca saiu do Brasil, que trará a resposta pra todos os conflitos dos animes.

Como se uma anjo caída que se transforma num otaku gamer hikikomori não fosse suficiente, os roteiristas decidiram que Satania merecia tomar umas bofetadas de um peixe misterioso. Isso mesmo, ela apanhou de um peixe. Na aula de culinária da escola!

Assassinado e cortado o estranho peixe que parece saído de alguma referência às animações americanas, começaram os preparativos: cozinha vegetal, descasca uma coisa, ferve outra, mas pelo menos Gabriel consegue expressar uma das maiores verdades desse nosso efêmero mundo:

“Tudo fica melhor frito”.


Pena que não foi verdade no caso desse prato….

Pra finalizar, percebemos que, enquanto a história caminha, os papéis se invertem entre as meninas - as duas garotas angelicais agora tem boca suja, são egoístas e só reclamam dos humanos (dizendo, inclusive, o que eu sempre repeti: tem gente demais nesse mundo).

Por outro lado, as aprendizes de demônio são terrivelmente boazinhas, mesmo não querendo ser. Algo, definitivamente, está de ponta-cabeça... Resta saber se apenas no anime ou se no mundo real também.


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Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby