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TÁ RECLAMANDO DO JAPÃO? VOLTA PRO BRASIL!

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Se você está vivendo no Japão, sinta-se profundamente agradecido por isso. E só. Não pode falar mal do país, estranhar os costumes, chocar-se com a cultura e, principalmente, precisa sempre abaixar a cabeça para os japoneses. Não pode reclamar do trabalho, do lugar onde mora, das injustiças, da xenofobia e, sem dúvida alguma, não pode dizer que sofre preconceito. Esse tipo de coisa só acontece em países de terceiro mundo, como o Brasil.

No Japão, não. Aqui é uma nação de primeiro mundo, onde tudo funciona, todo mundo é bem educado, estritamente pontual e incorruptivelmente idôneo. Se você está aqui, é por pura e despretenciosa bondade dos japoneses. Tem que aceitar absolutamente tudo do jeitinho que está, ou faça as malas e volte para o Brasil.

Pelo menos é nisso que alguns brasileiros acreditam.


E quem está afirmando isso não sou eu, são os milhões de comentários ofensivos nas redes sociais. "Não tá satisfeito, então volta pro Brasil!", dizem eles. "Tá reclamando de barriga cheia, no Japão não tem violência, crime, tá bom demais".

Esse tipo de postura reflete uma visão de mundo limitada que o Pocket Hobby tenta mudar diariamente. Mas dá pra entender porquê certas pessoas pensam assim. O Japão dos filmes, animes e mangás é completamente diferente do Japão da vida real (aliás, como todo o resto). O paraíso de tranquilidade, alta tecnologia e lolitas que te prometem no Brasil não é, nem de longe, parecido com a realidade e a vida dura do oriente.

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Sendo uma nação de profundos contrastes, onde a modernidade (tecnológico) e o milenar (tradicional) convivem diariamente nas ruas, fábricas e, principalmente, dentro da cabeça das pessoas, o país dos samurais, gueixas e do sushi também é viciado em outra droga, chamada homogeneidade, oprimido pela cultura do "abaixar a cabeça" e cercado de desinformação por uma mídia local que só transmite às massas shows de convidados, repassa notícias previamente censuradas e trocentos programas de culinária a cada meia hora.

Quando converso com amigos no Brasil, tento explicar que o ijime (bullying) dentro das escolas e empresas nunca foi combatido de verdade. Pelo contrário, ele é aceitável e até incentivado por baixo dos panos, pois cumpre o importante papel de oprimir a individualidade dos japoneses. Ele é o maior formador do caráter de um cidadão nativo médio.

A disciplina oriental não é característica inata, ela surge por causa do medo.


E isso se reflete também nos escritórios, fábricas e, especialmente, nas (poucas) leis trabalhistas, formuladas tanto por parlamentares eleitos quanto adquiridas através de acordos e tratados internacionais.

Sim, os direitos trabalhistas existem no Japão - mas fazer valer esses direitos já é outra história.

Você mesmo deve sofrer (ou conhecer alguém que sofra) com isso: numa mesma fábrica, executando o mesmo trabalho, duas pessoas recebem salários diferentes. Há até quem pense "contanto que o meu seja maior, dane-se o outro", mas a situação fica pior quando se trata de um japonês e um estrangeiro: enquanto o primeiro tem estabilidade, salário fixo, férias pagas, assistência médica para toda a família e bônus anuais, o segundo mal consegue horas extras suficientes para fechar as contas no fim do mês.

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Pois nem tudo que está no papel, nas leis, é praticado no dia-a-dia. E quando estrangeiros (em especial brasileiros) reivindicam o cumprimento das regras, gritam, tornam suas queixas públicas, principalmente através das redes sociais, recebem uma saraivada de comentários maliciosos, mal humorados e, não raro, ofensivos de seus próprios compatriotas.

"Mas como assim, existem japoneses agindo fora da lei? Existe japa desonesto?". Sim, e muitos. Mas esse não é o caso. Direitos Trabalhistas só existem porque foram conquistados por gente que não abaixava a cabeça, pessoas que não achavam "normal" ser explorado, discriminado, humilhado e, ainda por cima, mal pago.

Mas sempre existem aqueles que acham errado reclamar. Que é coisa de petista, esquerdista, conformista, sindicalista, coloque os "ista" que preferir. Existe quem xinga, ofende e menospreza - e geralmente são pessoas que também enfrentam os mesmos problemas, preconceitos e injustiças, mas preferem não enxergar. Abaixa a cabeça, imita os três macacos do "cego, surdo e mudo", segue trabalhando e "martela" o prego que sobressaiu.

"Está achando que isso aqui é Brasil?!"
"Tá Reclamando do Japão? Então vaza!"


Se temos assegurados alguns (mínimos, diria eu) direitos trabalhistas no Japão, que outrora foram negados ou omitidos aos primeiros dekasseguis, foi porque alguém teve a coragem necessária para denunciar as injustiças, exigir, pressionar por mudanças e, principalmente, compartilhar seus conhecimentos - certamente, não foi um desses da turma do 'tá reclamando vai embora'.

Comumente taxados de "problemáticos" por uma comunidade desinformada e pouco unida, o brasileiro que "reclama de barriga cheia" termina criminalizado por seus pares, que sequer aprenderam a se unir, a lutar pelo bem comum. Nem no próprio Brasil, quem dirá no Japão...

Contudo, queixar-se de uma injustiça, de um ponto específico do modo de vida japonês, como o excesso de trabalho, o valor absurdo dos impostos, ou mesmo discordar do contrato de trabalho que te foi apresentado, não significa ser contra "tudo e todos", avesso ao país em sua totalidade — sua cultura, seu povo, suas belezas naturais, sua tecnologia e praticidade...

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Se fosse assim, eu mesmo, que adoro viver aqui, deveria ir embora também, já que sou alérgico a frutos do mar e, portanto "não posso apreciar a culinária típica".

Quem diz “está insatisfeito com o Japão?! Então vai embora”, está, na verdade, confundindo o "todo" com "uma parte". É gente que acredita que confunde o conceito de "direitos" - comumente ligado a deveres prévios - com “favores”, uma esmola aos forasteiros, por assim dizer.

Se você já pagou impostos no Japão, tem o direito de vê-lo revertidos em benefícios públicos. Não é nenhum "favor" do governo, ele existe justamente para isso! O problema é que, como no Brasil as coisas nunca são bem assim, o brasileiro que chega no Japão acaba confundido - pois tudo que ele aprendeu durante a vida de repente está errado.

Como assim, um país seguro?! Onde a criminalidade é baixa (ou nula, em muitas cidades)? Onde quem rouba vai pra cadeia? Onde existem mais suicídios que assassinatos? Onde furtos e roubos são uma raridade estatística? Onde dar uma "carteirada" na blitz policial é quase tão raro quanto ver unicórnios saltitando pela pista?! Como assim?!

É... Simples assim. O problema é que não é bem assim. Mas como assim?


Calma que eu explico.

A turma que acha que direito é favor, e que devemos ser eternamente gratos pelo Japão ter aberto as portas para nós, é a mesma turma que que adotou a filosofia do “insatisfeitos, vazem!”. E, apesar de serem bem críticos ao Brasil, ao povo brasileiro e sua cultura, gente com essa mentalidade aparentemente só quer se sentir superior aos demais. Só por estar aqui, inconscientemente pensam que são pessoas melhores que as outras.

Quase uma Síndrome de Estocolmo. Aliás, se você não sabe o que é isso, preste atenção.

"Síndrome de Estocolmo" é o nome de um estado psicológico em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor pelo seu agressor. É chamada assim por conta de um episódio ocorrido na Suécia, muito tempo atrás, quando vítimas de sequestro e abuso, desenvolveram sentimentos de afeto e apego pelos próprios agressores, seqüestradores e abusadores.

Parece a descrição de alguém que você conhece? Alguém que sobre abusos na fábrica, dos chefes, da firma contratista, que aguenta provocação dos vizinhos orientais, que é maltratado em lojas e repartições públicas mas, ainda assim, defende os japoneses e não suporta ouvir nenhuma crítica a tudo de estranho e injusto que acontece por aqui? Pois não é à toa.

Quem sofre da Síndrome de Estocolmo acredita que possa "amenizar" os episódios de abuso ou tentar "negociar" algum tipo de acordo na relação vítima/agressor, reduzindo a tensão entre os envolvidos. De forma geral, seguir a cartilha de “seja grato ao Japão, não reclame de nada, nem das injustiças” é uma doença psicológica. Uma "Síndrome de Tokyo", por assim dizer.

Mas a verdade é que quem reclama não é ingrato, está apenas tentando construir um mundo melhor. Seja parte da solução, não do problema.

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Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby