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O DIA NÃO-OFICIAL DO SUICÍDIO NO JAPÃO

O Dia Não-Oficial do Suicídio no Japão - Pocket Hobby

Hoje é um dia trágico no Japão. Dia que marca o fim das férias de verão para milhares de crianças e jovens. Dia de volta às aulas. Dia em que o número de suicídios entre adolescentes japoneses atinge proporções epidêmicas.

Não é novidade pra ninguém que o Japão possui uma das maiores taxas de suicídio do mundo: num país onde a causa mais comum de mortes entre adolescentes (10 e 19 anos) é o suicídio, o Governo levou 40 anos (!) pesquisando para chegar à conclusão de que 01 de setembro é historicamente o dia em que o maior número de menores de 18 anos têm tirado suas próprias vidas.

As estatísticas são alarmantes: dos anos 70 até 2013, das mais de 18.000 crianças que se mataram, em média, 92 o fizeram em 31 de agosto, 131 em 1º de setembro e 94 em 2 de setembro.


Os números também são preocupantemente elevados no início de abril, quando começa o calendário escolar japonês.

Na verdade, o dia exato do começo de semestre varia um pouco de região para região, mas a maioria dos lugares adotou o Primeiro de Setembro como data padrão para o fim das férias de verão. A volta às aulas e a notória pressão da sociedade oriental em cima das crianças são os principais fatores que os levam a tirar suas vidas. Como professor, isso me revolta. E não se surpreenda se esse ano a história se repetir.

Entre os professores de escolas japonesas, por exemplo, a alta taxa de suicídios em 1º de setembro "é fato bem conhecido na comunidade". Muitos estudantes fazem, literalmente, qualquer coisa pra não precisarem voltar pra escola - incluindo tirar a própria vida.

O maior responsável por esses dados assombrosos é o ijime (bullying)


Num país onde o ijime (bullying) é tão comum que parece doença epidêmica, encontramos crianças com medo, impotentes e oprimidas pelos próprios colegas (e, não raro, por professores) dentro do ambiente escolar, que acabam não aguentando a pressão e se suicidam. Lembra do ditado que citei num artigo anterior? "O prego que se sobressai acaba martelado". É assim no Japão.

Alguns jovens preferem literalmente morrer do que ter que voltar pra escola, pois é no ambiente escolar que acontecem os abusos, verbais e físicos, e onde a pressão por resultados acadêmicos se torna insuportável.

Convenhamos, algumas instituições são demasiado rígidas e impõem regras esdrúxulas - tais como exigir habilitação para conduzir bicicletas, reprimir qualquer contato físico entre os alunos e confiscar materiais (incluindo roupas!) que não estejam de acordo com as normas.

1 de Setembro, o Dia Não-Oficial do Suicídio no Japão - Pocket Hobby - www.pockethobby.com
Estudantes Japoneses em Grupo

Mas o cerne do problema está nas regras não-oficiais, impostas pelos próprios alunos, geralmente valentões que atuam debaixo dos narizes de diretores, coordenadores e professores. Pesquise pela internet que você irá encontrar diversos depoimentos de estudantes japoneses afirmando que odiavam a escola, as regras... Que só tinham uma escolha, se juntarem aos valentões ou se tornarem o próximo alvo deles.

Claro que, sendo a sociedade mais hierárquica e competitiva do planeta, o Japão possui costumes implacáveis. É um território onde "você tem que bater em seus próprios amigos.", como definem os próprios japoneses em depoimento.

Inclusive, o termo japonês empregado na época de preparação para o vestibular inclui a palavra "guerra" - uma batalha feroz demais para muitas crianças japonesas.

No Japão, o ijime é uma doença epidêmica


Várias iniciativas são feitas, todos os anos, para reverter o quadro. Contudo, a cultura do ijime é uma tradição antiga por aqui, e precisa ser combatido com mais vigor. Aos pais brasileiros que tem filhos no sistema escolar japonês, aqui vai um conselho: conversem bastante com seus filhos sobre o dia-a-dia dentro da escola, entrem em contato com os professores, e mesmo que você não domine o idioma japonês, procure os tradutores da prefeitura da sua cidade e marque reuniões na escola através deles.

Fique atento. Não deixe que seu filho seja mais um número nessas estatísticas macabras.


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Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby