OS SEGREDOS DE QUEM MORA NO JAPÃO

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Preciso confessar: quando vim morar no Japão, eu pensava que seria a experiência mais enriquecedora e interessante da minha vida, mas nem tudo (pra falar a verdade, quase nada) aconteceu como eu planejei.

Desde que pus os pés na Terra do Sol Nascente, ainda como estudante de intercâmbio, fiz vários planos, tive muitos sonhos, mas tudo dependia de fatores que fugiam do meu controle.

Por exemplo, nunca imaginei que aqui, do outro lado do Pacífico, nasceria em mim a vontade de produzir conteúdo pra internet - que mais tarde se transformou no Pocket Hobby, e já está no ar a quase dois anos.

Também nunca imaginei que ainda estaria vivendo fora do Brasil, quatro logos anos depois.


 E que encontraria tantas pessoas interessantes, curiosas e amáveis durante esse tempo todo. Afinal de contas, a imagem que tentam passar sobre o Japão, para quem está fora, não é das melhores.

"Tem terremoto todos os dias lá", diziam uns. "Todo japonês é bizarro. Ou tarado", repetiam outros.  "Frutas custam mais caro do que eletrônicos"; "É tudo apertadinho, pequeno, minúsculo, até os quartos de hotel são cápsulas que mais parecem caixões". Se eu tivesse dado ouvidos a tanta desinformação (principalmente pelo que circula na internet), não teria decidido morar aqui, pra começo de conversa. Se eu tivesse prestado atenção nas críticas, ao invés de me concentrar nos benefícios, pensaria que o Japão é só catástrofe, desastre natural, crise econômica, xenofobia, preconceito e 18 horas de trabalho por dia.

Existem dois "Japão" - um dos otakus, animes e mangas. Outro, dos estrangeiros, da vida real.


Só que esses dois mundos não precisam ser tão distantes assim um do outro. No final das contas, meu sonho de vir morar no Japão começou por conta da influência de Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco e, mais tarde, Full Metal Alchemist, Code Geass e Evangelion.

Foi a melhor escolha de todas - e, veja bem, eu cheguei em agosto de 2011, o mesmo ano do desastre nuclear de Fukushima, quando todos ainda estavam atônitos e em pânico!

Pensando nisso, aqui vão cinco dicas para você que também quer viajar pelo mundo e conhecer novas culturas, mas tem dado com "a cara na porta" e escutado somente críticas quando expõe publicamente seu sonho:


- NÃO ESCUTE QUEM NUNCA FOI

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Muitos otakus, por exemplo, acompanham sites, podcasts e diversos conteúdos feitos por pessoas que: 1- Jamais pisaram no Japão; 2- Não tem a menor ideia sobre o quê estão falando; e 3- Não entendem a fundo a língua, os costumes ou a cultura japonesa.

Por mais mangas que tenham lido, animes que tenham assistido, e mesmo que tenham vindo passar alguns meses de férias aqui, essas pessoas nunca viveram realmente no Japão, não vivenciaram experiências in loco, por isso tendem a fazer avaliações erradas, tendenciosas ou - o que é mais nocivo - superficiais.

Conhecer o Japão é só o Primeiro Passo. É preciso viver aqui - por tempo suficiente.


Certos criadores de conteúdo, em suas análises, acabam repetindo - mesmo sem querer - estereótipos bizarros, criando impressões erradas, e terminam vomitando preconceitos que outros colocam na internet, criando assim uma impressão enganosa sobre o Japão real, de fato, do dia-a-dia.

Sim, é muito legal (e temos que incentivar!) que as pessoas discutam sobre os 957046 animes  diferentes que já assistiram, criem teorias e enriqueçam a comunidade, mas você deixaria um açougueiro fazer a manutenção do seu computador, por exemplo? Eu acho que não.

Da mesma maneira, não espere que "criadores de conteúdo" que nunca viveram no Japão entendam como é a vida do outro lado do mundo (vou te dar uma dica: ela é muito mais do que os "Seinen", "Shoujos" e, principalmente,  "slices of life" fazem parecer).

Eu mesmo estou aqui a quase quatro anos e não entendo completamente!


- NÃO VIVA DENTRO DE UMA CONCHA

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O segundo passo vale pra quem já está aqui, para aqueles que conseguiram superar preconceitos, juntaram dinheiro, trabalharam duro não apenas para viver em outro país, mas também para conhecerem uma das culturas mais exóticas e encantadoras do Planeta Terra: quer realmente desfrutar tudo de bom que o Japão tem a oferecer? Então se liberte do casulo, do mundinho dos estrangeiros, da rotina casa-trabalho-casa, igreja de estrangeiros, lojas de estrangeiro, vida de estrangeiro, costumes de estrangeiro.

Sim, o dia-a-dia no Japão é difícil, principalmente por conta da língua. Não é "lenda urbana", aqui trabalha-se demais. Quem já vive aqui sabe que não existe muito tempo livre pro lazer e atividades familiares ou pessoais.

Contudo, muitos estrangeiros não aproveitam o que de melhor o Japão tem para oferecer justamente por não conseguem se libertar dos velhos costumes, dos amigos que também vieram do Brasil (ou do Peru, da China, de onde for, aqui sua nacionalidade é o que menos importa - embora, se você está lendo isso, provavelmente seja brasileiro como eu).


- NÃO IMITE NINGUÉM

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Esqueça aquele papo furado de que se você vai pro Japão, tem que viver a vida de um japonês. Lembre-se, o segredo é não exagerar. Assim como viver no Japão pensando no Brasil está errado, tentar imitar os costumes locais também por ser outra armadilha.

Se você não nasceu japonês, não tem porque tentar ser como eles são. Além disso, passar muito tempo tentando se transformar naquilo que você não é vai acabar infeliz, frustrado e sem forças. Eu mesmo lembro de me sentir um paspalho no primeiro ano morando fora, tentando fazer amizade com os japoneses, tentando gostar (e odiando!) sake, indo pra lugares que eles gostavam de ir, fazendo coisas que eles gostavam de fazer, tentando reproduzir o estranho sotaque da região onde moro e querendo, de uma vez por todas, o meu lugar nesta sociedade.

Não esqueça das suas origens


Tudo isso foi tão exaustivo e frustrante que, quando eu finalmente consegui, notei que era uma tremenda ilusão. Nada daquilo me fazia uma pessoa mais feliz, pelo contrário, é sempre necessário para um estrangeiro se adaptar, se infiltrar, conhecer e entender a cultura para viver melhor no novo país.

Mas sem precisar suprimir suas próprias raízes.

Sabemos que tudo vem com o tempo, com esforço e conhecimento. É preciso paciência, persistência e um coração dedicado para compreender de verdade a cultura japonesa. Afinal de contas, não dá pra aprender tudo de uma vez, seria como assistir todos os episódios de One Piece numa só tarde.


- O AMOR FACILITA TUDO

Os Segredos de quem mora no Japão - Pocket Hobby - www.pockethobby.com - Amor!

Quando saí do Brasil eu tinha uma coisa bem clara diante de mim: é apenas um intercâmbio. Um ano e acabou. Volto pro Brasil, pego meu diploma e toco a minha vida adiante.

Mas eu não consegui. Durante aquele ano, tinha feito amigos, conhecido pessoas, me apaixonado. Sei que é meio complicado admitir isso, mas o maior inimigo de quem vai morar em outro país não é sofrer preconceito, uma doença súbita ou faltar dinheiro. O maior risco é a solidão.

O inglês até tem um termo pra isso, "homesick". Saudades de casa. Saudade tão grande da família, das pessoas que te cercam e que te amam, que você acaba, literalmente, doente.

Ame o lugar onde você está. Viva o presente!


Agora, quem encara a aventura de "cair no mundo" acompanhado de outra pessoa já sai na vantagem. Existe menos pressão pra se adaptar à nova cultura, pois aquela urgência em fazer novos amigos diminui, você sempre vai ter com quem contar nas horas do aperto e, se uma cabeça pensa legal, duas então vão muito mais longe.

E quando a pessoa que está do seu lado gosta das mesmas coisas que você.... Isso é sorte grande. Tudo acontece num ritmo mais agradável, sem pressão, com menos frustrações. Quem muda de país na companhia de outro, carrega consigo um pedaço de casa.

Arranjar um alguém lá do outro lado também ajuda, principalmente um "nativo". Você aprende a língua mais facilmente, convive com hábitos locais e se adapta de 3 a 5 vezes mais rápido. Vale, inclusive, um bromance.


- HORA DE PENSAR EM TRABALHO

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Aliás, vamos deixar uma coisa bem clara. Um “bom emprego” não é sinal de felicidade, e um "bom salário" não é sinônimo de prosperidade. Há pessoas que ganham pouco e vivem bem, assim como milionários cuja vida pessoal é uma bagunça. Aí estão os ídolos do rock, mortos em overdose, suicídio ou coisa pior, pra provar meu ponto de vista.

Uma pergunta bem simples: você gosta (ou gostava) do seu trabalho no Brasil? Quantos trabalhos já teve nos quais se sentiu realmente feliz e realizado? Sua resposta pode até ser algo do tipo: “Mas no Brasil eu estava trabalhando na minha área", ou "o trânsito pra chegar e voltar para a casa era terrível, mas meu trabalho era ‘decente’". E eu volto a perguntar: por que limpar chão de pub na Escócia, ser caixa de supermercado em Portugal ou peão de fábrica no Japão é, sob qualquer ponto de vista, um trabalho "inferior"? Por que lavar banheiro ou apertar parafuso em linha de produção faz de você uma pessoa diferente daquele salaryman de terno?

Trabalhe para viver, não viva para trabalhar


Alguém enfiou na sua cabeça que estar nesse ou naquele emprego era a resposta pra tudo na vida. Que o emprego perfeito seria o ponto mais alto de uma existência bem-sucedida. Te doutrinaram a acreditar que outros trabalhos são inferiores ou degradantes, que são obrigação de outras pessoas.

Só posso dizer uma coisa pra quem pensa assim: cara, desencana. Se você não gosta do seu trabalho (no Brasil ou no exterior), só há três coisas a fazer:
1 - Entender de uma vez por todas que ser feliz não tem nada a ver com trabalhar na sua área de formação, “limpinho” na Av. Paulista ou num escritório em Shinjuku;
2 - Buscar o trabalho que te deixará mais feliz, preparando-se adequadamente e aceitando que, na vida, certos sacrifícios são necessários. Isso pode incluir (mas, como dizem os contratos sonolentos, não se resumir somente a): fazer uma nova faculdade, aprender outro ofício, mudar de cidade ou país e reaprender tudo do zero; e
3 - Aceitar, de uma vez por todas, que não existem trabalhos "bons" ou "ruins": qualquer trabalho é trabalho. Seja onde for, como for, quando for, sem preconceitos. Afinal de contas, o salário pode até variar de uma carreira para outra, mas dinheiro é dinheiro. Desde que seja honesto.


- APRENDA O IDIOMA - E APRENDA BEM!

Os Segredos de quem mora no Japão - Pocket Hobby - www.pockethobby.com - Aprenda japonês

Desse item nenhum imigrante pode fugir. E é sempre a parte mais árdua e custosa. A não ser que você já saia do Brasil fluente na língua do lugar para onde vai, você terá que aprender o idioma (e bem). Falar de verdade o idioma do local de destino só vai transformar a sua vida pra melhor. Abrirá portas, melhorará seu relacionamento com os outros, aumentará (em tamanho e qualidade) seu círculo de amizades e seu grau de independência.

Sabe aquele emprego de supervisor na fábrica que paga o dobro do seu? Pois é. Pense o seguinte: se você estivesse no Brasil e fosse dono de uma fábrica, daria num cargo de confiança aquele japonês que nem aprendeu português direito?

Acho que não. É até curioso, mas quanto melhor você falar o idioma, mais as pessoas vão valorizar o que você diz e menos estranho você irá se sentir naquele lugar. Sabe aquela história de que “Você não precisa saber falar japonês perfeitamente bem, pois as pessoas sabem que você é de outro país”?! Pura mentira.

Aprender um novo idioma faz bem pro cérebro, melhora as conexões neurais e rejuvenesce


Falar bem o idioma atinge todas as esferas da vida de qualquer imigrante, e isso inclui uma melhor colocação profissional. Se esforce, ouça rádio, assista a TV, namore, fale, fale, fale mesmo que errado até você aprender a falar certo. Aprenda de verdade o idioma. Vai levar muito tempo, eu sei, mas os benefícios a longo prazo compensam. Faça papel de idiota, dê bolas fora, mas apenas uma vez. Aprenda errando, pra não precisar continuar errado.


- MORAR UM ANO NÃO É A MESMA COISA QUE MORAR CINCO, DEZ OU MAIS


Antes de vir pro Japão como estudante de intercâmbio, era praticamente um mantra na minha Universidade que estudar japonês por aqui seria bom para a minha carreira. Todos repetiam que um ano era tempo suficiente. Que, matriculado como intercambista numa Universidade Japonesa, eu aprenderia tudo o que precisava durante aquele ano letivo.

Fizeram-me prometer que eu não ia conviver apenas com brasileiros (o que, no meu caso, era fácil, já que éramos apenas quatro na cidade inteira), que teria amigos japas, que aprenderia o máximo da cultura japonesa e que, no Brasil, todas as lacunas restantes seriam preenchidas.

Mas um ano é pouco, muito pouco. No caso da língua japonesa, é impossível aprender tudo o que se precisa com apenas 4 anos de estudo no Brasil e outro ano no Japão. Se formos falar da cultura, então... Talvez a vida inteira seja pouco tempo para um estrangeiro sem descendência, como eu.

Ter uma data pra voltar é a coisa mais nociva que você pode fazer em sua experiência no exterior - seja ela um ano, três, cinco ou mais. Assim, não há espaço pra relacionamentos profundos ou empregos estáveis, a vontade de estudar/trabalhar diminui, afinal de contas, "daqui a pouco eu vou embora", e de repente o tempo passa, a experiência acaba e você se dá conta que não viveu de verdade, apenas foi assombrado por um relógio dentro da sua cabeça.

Em um ano de Japão, você simplesmente não vai aprender nada que realmente importa. Só o tempo te ensina a viver as experiências e ainda ter umas histórias para contar.

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Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby