A Coreia do Norte Atacará o Japão?

O CULTO AO TRABALHO NO JAPÃO

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Antes de mais nada, preciso esclarecer: eu adoro o Japão, amo quase tudo sobre este país, mas a única que realmente me decepciona é a cultura empresarial local.

Como já expliquei outras vezes, sou professor em escola brasileira. Cheguei aqui no final de 2011, fiz intercâmbio durante um ano numa Universidade Japonesa exclusivamente para aprender a língua local e, desde então, venho trabalhando na minha área de formação - o que me transforma em exceção à regra. Pouquíssimos imigrantes (não importa a nacionalidade) conseguem trabalhar com o que realmente gostam no Japão. Mas não foi fácil.

Durante minha estadia, já trabalhei em escola japonesa, já passei por diferentes escolas brasileiras e aprendi muito sobre minha profissão, meus colegas e, principalmente, sobre esse país.


 Alfabetizei centenas de brasileirinhos nessa língua estranha que é o japonês, dei aulas de inglês também, mas o maior aprendizado que obtive sobre o Japão aconteceu na época em que eu ministrava aulas particulares de português para japoneses endinheirados procurando por um hobby.

Veja bem, a maioria dos estrangeiros trabalham uma média de 12 horas diárias (sendo que a maioria trabalha bem mais que isso, chegando a 15/16 horas por dia, 6 dias por semana), em empregos puxados, dentro de fábricas, um trabalho repetitivo, entediante e, não raro, insalubre. Não há muito tempo para descanso, muitas fábricas sequer respeitam os feriados japoneses, férias de 30 dias são um sonho inalcançável, e 13o salário (ou bônus, como é conhecido por aqui) "não é direito dos estrangeiros".

Enquanto isso, a maioria dos japoneses para quem eu dei aulas particulares, apesar de trabalharem quase a mesma quantidade de horas, eram todos "salaryman", homens de terno enfurnados em escritórios de companhias ou funcionários públicos. E qual não foi a minha surpresa ao ouvir de um deles que, quase todo dia, "não há muito trabalho a ser feito".

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Afinal, os japoneses trabalham muito mesmo?!

O "verdadeiro" trabalho, aquele para o qual eram contratados, não demandava muito tempo do dia. Em cinco ou seis horas, estava tudo feito. O resto do tempo era gasto em tarefas desnecessárias, irracionais, "só pra enrolar" e acumular horas extras.

E alguns nem recebiam por essas horas a mais! Ficavam até tarde no escritório somente pra garantir a simpatia do chefe ou para que os colegas os julgassem como funcionários esforçados.

Apesar de ridícula, segundo meus alunos "essa é a maneira japonesa".


Os japoneses também não tem férias longas. Sim, eles desfrutam de muito mais direitos trabalhistas do que nós, estrangeiros, mas ainda assim são poucos que conseguem mais do que uma semana corrida de folga por ano. No caso de funcionários públicos, um antigo aluno me confidenciou que, durante a mudança de ano fiscal (entre março e abril) na prefeitura onde trabalhava, ele chegou a dormir no escritório durante dias, mesclando essa rotina de trabalhar a sério e enrolar, pois todos os colegas estavam fazendo o mesmo, e se ele voltasse pra casa corria o risco de ser demitido...

Enquanto eu aqui penso "esse tratamento é tão ilegal, mesmo no Japão", eles fazem isso de qualquer maneira, por causa do "culto ao trabalho". Claro que não se aplica a todos, mas posso dizer honestamente que a grande maioria dos salaryman, incluindo as dezenas de alunos que ensinei, são assim.

Ao contrário do que dizem por aí, um empregado médio japonês, apesar de trabalhar muito, fazer muita hora extra e até dormir no escritório, é ineficiente. Eles desperdiçam bastante tempo em atividades lentas, repetitivas, burrocráticas, e chegam até mesmo a fica horas sem fazer nada, apenas fingindo que estão trabalhando diante dos seus computadores e dos papéis na mesa, apenas pelo senso de aprovação do resto da equipe.

Essa é a "maneira japonesa" de cultuar o trabalho - e talvez seja por isso que a competitividade do Japão no cenário internacional só tem diminuído com o passar dos anos...


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Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby