Robocraft - Esquadrão "Morri"!

NACIONALIDADE JAPONESA PARA FILHOS DE ESTRANGEIROS NASCIDOS NO JAPÃO

CIDADANIA JAPONESA PARA FILHOS DE ESTRANGEIROS

Hoje o assunto é pessoal e sério; na verdade, parte de uma pergunta feita por um aluno meu.

Como alguns já sabem, sou professor de escola brasileira aqui no Japão. Já trabalhei em escola japonesa, mas preferi a brasileira. Tenho orgulho dessa escolha, e da profissão que escolhi, apesar do baixo salário, da falta de seriedade de alguns (que dão aula "só pra não ter que ir pra fábrica") e das dificuldades de ensinar crianças, filhos de brasileiros que vivem no Japão, mas que muitas vezes sequer conhecem a terra dos seus pais.

Aliás, a maioria dos meus alunos nasceram aqui no Japão, nunca foram para o Brasil, e diversos deles chegam na escola já em idade avançada mas mal sabendo falar o português. E todas elas, sem exceção, se perguntam: "quem sou eu"?!


As poucas crianças "privilegiadas", que já foram ao Brasil pelo menos a passeio uma vez, também passam por essa crise de identidade. Elas não se reconhecem naquele contexto, naquela cultura. Elas não se "sentem" brasileiras. Esse é o caso do meu aluno, que perguntou, dias atrás: "porque eu não posso ser japonês, já que brasileiro eu também não sou?"

É difícil explicar o emaranhado confuso de leis japonesas de imigração e nacionalidade. Termos como "juris solis" e "juris sangüinis" são conceitos políticos incompreensíveis para uma criança ou adolescente que se sente vítima de discriminação ou preconceito. Afinal de contas, na cabeça dele (e na minha, devo confessar), se quem nasce no Brasil é brasileiro, por lógica quem nasce no Japão deveria ser, obviamente, japonês. Ou não?



Essas crianças nasceram estrangeiras. Para sempre.



E quando uma dessas crianças (ou adolescentes, já que dou aula para alunos do colegial também) me diz: "Eu não quero ser peão de fábrica. Eu quero ser engenheiro, tradutor, atleta, mas não consigo, não me deixam ser o que eu quero porque sou estrangeiro" eu fico num dilema, e vou dormir sempre de coração apertado.

Eu vim para o Japão completamente formado, com 27 anos, um diploma debaixo do braço e muita força de vontade para destrinchar esse novo mundo. Mas meus alunos jamais terão essa oportunidade. Eles não tiveram escolha. Nasceram aqui, em uma família de estrangeiros, que muitas vezes não falam o idioma local, não se reconhecem nos costumes nipônicos nem se adaptaram à cultural local.

Alguns pais não pensam em voltar para o Brasil, já vivem aqui a mais de 15, 20 anos. E mesmo assim seus filhos continuarão estrangeiros. Essa é a regra.

NACIONALIDADE JAPONESA PARA FILHOS DE ESTRANGEIROS NASCIDOS NO JAPÃO - 2.1 - Pocket Hobby - www.pockethobby.com
A vida no Japão não é fácil para os pequenos

Mesmo que essas crianças saibam tudo sobre o Japão, estudem a cultura e a língua, frequentem a vida toda uma escola japonesa, aprendam a falar, se comportar e pensar igualzinho a um japonês, ainda assim serão estrangeiras. Mesmo que elas nasçam, cresçam, se reproduzam e morram aqui, elas ainda assim serão estrangeiras. Mesmo que tenham amigos japoneses, trabalhem em empresas japonesas, deem o sangue, a alma, a saúde física e mental em prol da nação do Sol Nascente, elas ainda assim serão estrangeiras.

São crianças e jovens sem direito à nacionalidade. Que não fizeram uma escolha consciente, como eu, nem tiveram chance de pôr na balança todos os prós e contras de se tornarem imigrantes numa terra xenófoba e contrastante que é o Japão. Seus pais escolheram por elas. Tomaram decisões que afetam o resto de suas vidas. Escolheram viver para sempre num outro país sem ter a nacionalidade local, diminuindo as chances de seus filhos nos âmbitos pessoal e profissional.

Acredito que não seja novidade nenhuma dizer que o Japão protege seus nacionais e deixa os estrangeiros em segundo plano. Qualquer país faz isso.

NACIONALIDADE JAPONESA PARA FILHOS DE ESTRANGEIROS NASCIDOS NO JAPÃO - 3.1 - Pocket Hobby - www.pockethobby.com
Poucas crianças estrangeiras se adaptam totalmente aos costumes, língua a cultura japonesas

E mesmo que, numa das raras situações, alguns dos meus alunos cheguem em idade adulta e decidam se nacionalizar japoneses, conquistando finalmente o kokuseki (nacionalidade) japonês, ainda assim serão vistos, encarados e (mal)tratados como estrangeiros.

Exemplo disso é meu colega de trabalho que possui a tão sonhada nacionalidade japonesa. Aliás, ele é casado com uma japonesa, e mesmo assim luta todo dia para que seus dois filhos não sofram nenhum tipo de ijime (bullying) na escola pública. Agora imagine a situação de quem não é (tão) "privilegiado" quanto ele...

No final das contas, eu sou brasileiro. Gosto do Brasil, das pessoas do Brasil, do jeito brasileiro de ser. Eu escolhi viver na terra do Sol Nascente porque sou apaixonado pela Cultura Japonesa e Otaku.


Mas essas crianças não.



O Japão não outorga a nacionalidade de filhos de estrangeiros nascidos no país, portanto, convenientemente (para eles, que inventaram as regras), não basta nascer em solo nipônico para ter garantido o seu direito à cidadania japonesa.

Esta lei é bem antiga, e não vai mudar por causa de "meia dúzia" de filhos de brasileiros e latinos, principalmente porque a preocupação do governo é evitar a "invasão" de milhões de estrangeiros asiáticos (chineses, coreanos, vietnamitas em sua maioria) que estão só esperando uma mudança na lei.

Afinal, a sociedade aos pés do Monte Fuji é extremamente frágil. Qualquer mínimo desbalanço pode destruir séculos de homogeneidade (não, isso não é verdade, mas é no que meia dúzia de políticos  acreditam).

No final das contas, a responsabilidade é dos pais. Sim, a cidadania japonesa é um processo burocrático, dificílimo, demorado, penoso e muitas vezes humilhante, que pode terminar com um redondo e sonoro "não". É quase um parto. Mas é feito pra ser assim. Quem criou essas leis, já as projetou como uma barreira contra forasteiros. Nada "vem fácil", não existe almoço grátis. Afinal, se fosse um passeio no parque, todos a teriam, e não existiria esse problema, não é mesmo?

Mas dando um passo de cada vez, tudo é possível. Garantindo condições de sobrevivência para a família, evitando impostos em atraso, tendo ficha limpa na polícia, trabalhando honestamente, realizando a contribuição previdenciária nacional, pagando o seguro de saúde e aprendendo o japonês, "um kanji de cada vez" (como dizia minha professora de faculdade), é possível revertermos esse quadro de discriminação.

Só depende de nós, do nosso esforço. De todos nós.

Quer se manter realmente atualizado? Clique!
Facebook - Twitter - Instagram

Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby