Trabalha-se Muito no Japão?

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Trabalha-se Muito no Japão?


Navegando pela internet, vez ou outra me deparo com algum absurdo - afinal de contas, estamos falando do Japão, terra das bizarrices, das lolis e dos tentáculos -, mas o mais engraçado é ver que a maioria dos boatos sobre a cultura local é propagado justamente por quem se diz "entendedor do assunto".

Aliás, o tema desse artigo foi inspirado por um blog que tentou desmistificar o excesso de trabalho no Japão. Dizendo "que não é bem assim", os caras mostraram diversas tabelas e pesquisas internacionais que colocam a Terra do Sol Nascente bem abaixo do "Top 10" dos países com casos de excesso de trabalho.

Eu não sei em qual planeta quem escreveu aquilo vive, mas a verdade é que, pelo menos aqui no Japão, as pessoas trabalham demais SIM.


Mas vamos por partes: a "fama" do povo japonês trabalhar demais começou no boom tecnológico do pós-guerra, quando o país, destruído, precisou se reerguer. Tanto a tradição quanto a cultura milenar do país exercem tamanha influência que, até hoje, num escritório tradicional japonês, os funcionários seguem rígidas regras de etiqueta, entre as quais chegar antes do horário ou não ir embora antes de seu chefe, mesmo que o seu trabalho já tenha sido concluído, são apenas as mais superficiais.

Outro fator pelo qual os japoneses trabalham demais é o dinheiro, claro. Num país de baixa inflação, quase todas as empresas e órgãos públicos adotam um sistema americanizado de pagamento por horas trabalhadas (e não mensal, como no Brasil), o que faz da cultura da hora extra uma obrigação - quanto mais se trabalha, mais se ganha.

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Aliás, os casos de salarymans que acabam morrendo por excesso de trabalho - Karōshi (過労死) - não diminuíram nos últimos anos, pelo contrário: eles são tão comuns que já deixaram de virar manchete (igual aos assaltos, extorsões, assassinatos no Brasil)...

Leis Trabalhistas


Quem vive e trabalha no Japão sabe que o país conta com Leis Trabalhistas bastante frágeis, que não protegem os empregados dos abusos praticados pelas empresas. Por exemplo: apesar da carga horária regular ser de 8 horas diárias (ou 40 semanais), é comum encontrarmos contratos estipulando nas entrelinhas 60, 70 ou até 80 horas de trabalho por semana, sem o pagamento de adicionais por horas extras. As empresas justificam tais hábitos através dos "privilégios" de tornar o funcionário shain (empregado direto, um cargo quase vitalício) e pelos bônus anuais (uma espécie de 13o salário, que a maioria dos estrangeiros no Japão não recebe).

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Outros funcionários, por conta dos baixos salários-base, fazem 2, 3 e até 4 horas extras diariamente (recebendo adicional de 25% por hora). Por causa disso, muitos japoneses e estrangeiros chegam a trabalhar mais de 100 horas extras mensais. O governo vem tentando limitar a quantidade de horas extras permitidas pela lei, e até mesmo retirar a remuneração extra, mas falha miseravelmente em cada tentativa de regular o mercado - muito por conta do lobby das empresas, que tem como principais concorrentes fábricas chinesas (onde, você deve imaginar, trabalho semi-escravo não é, nem de longe, raridade).

Como é o trabalho?


Por conta dessa concorrência com a China (e Vietnã, Indonésia, Filipinas...), muitas fábricas japonesas dizem que, apesar da lei exigir que todos os trabalhadores tenham pelo menos 1 dia de descanso semanal ou 4 dias mensais, se o empregado "quiser" trabalhar no dia de descanso, ele recebe um valor adicional de 35%. Lembre-se que, na verdade, quem se recusa a ir trabalhar em seus dias de folga quando chamado é demitido.

No final das contas, o trabalhador tem duas opções: "querer" trabalhar quando a fábrica chama ou ir pra fila do seguro-desemprego (sem direito a nenhum tipo de "acerto" ou fundo de garantia por tempo de serviço).

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Por outro lado, existe uma grande parte de jovens e adultos que trabalham em sub-empregos de meio período. Os salários oferecidos nesses casos raramente passam de ¥ 900 a hora (cerca de R$30,00), e as condições de trabalho muitas vezes são deficientes. Aliás, esse valor até pode parecer bastante quando convertido em reais, mas acredite, o custo de vida por aqui é um dos mais altos do mundo...

Há donas de casa que se dedicam a "arubaitos" (bicos) de poucas horas diárias. Elas ganham pouco, mas a quantia ajuda no orçamento familiar.

Por último existem os que trabalham "por conta" ou se dedicam exclusivamente a um negócio próprio, portanto contribuem com "poucas horas de trabalho" para as estatísticas. Mas os pequenos empresários são uma fatia muito pequena na cultura corporativa japonesa, e quem já foi dono de algo sabe quanto trabalho isso dá...

Trabalho para estrangeiros no Japão


Lendo o artigo que me inspirou a escrever este, encontrei afirmações como: "os estrangeiros acabam criando uma fama ruim do trabalho no Japão, por causa das horas extras".

Não é bem assim. Na verdade, os estrangeiros não "criam" essa fama: estudos acadêmicos e científicos mostraram que as condições são tão ruins que até existe um apelido para elas: 5K.

Cada "K" significa uma palavra em japonês: Kitsui (penoso), Kitanai (sujo) Kibishii (difícil), Kiken (perigoso) e Kirai (detestável). Atualmente, o Japão está passando por uma fase de falta de mão-de-obra por conta de dois fatores: encolhimento da população e baixíssimos salários oferecidos.

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Como o mercado nipônico está em uma fase de adaptação tardia, as empreiteiras querem evitar gastos com impostos e "Shakai Hoken" (seguro-saúde). Assim, muitos estrangeiros acabam não encontrando outra alternativa a não ser trabalhar 12, 14 ou até mesmo 15 horas diária para manter seus empregos.

Há casos também de estrangeiros que mergulham fundo no trabalho, com objetivo de juntar dinheiro e voltar para seu país de origem, ignorando diversão, cultura, idioma ou passeios. Cada centavo ganho é economizado pro futuro, e cada minuto longe do trabalho é encarado como "prejuízo".

Seja por conta da xenofobia japonesa, da falta de fluência no idioma, de oportunidades melhores, ou mesmo de vontade própria, essas pessoas embarcam numa espiral que, não raro, lhes custa a vida.

Carga horária do Japão vs Resto do Mundo


Muitos avaliam os números e dizem: o Japão não é um dos países que mais se trabalha no mundo. Infelizmente, ele é, sim. As estatísticas é que estão mal aferidas.

Apesar de pesquisas apontarem que a média de carga horária do Japão é de 1734 horas anuais, os dados levam em conta todos os trabalhadores, inclusive os temporários - e esse é o problema. Por ano, são trabalhadas uma média de 34 semanais por pessoa.

Mas você conhece alguém com emprego fixo, japonês ou estrangeiro (nessa altura do campeonato, já não importa mais) que trabalhe tão pouco?

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Teoricamente, o país que mais trabalha é o México, com uma carga horária média de 43 horas semanais. Mas tanto lá quanto nos outros países do ranking, a cultura do "arubaito" (trabalho de meio período) representa uma parcela mínima dos trabalhadores, enquanto aqui no Japão esse número representa mais da metade da força de trabalho atual.

Entendeu? Em segundo lugar temos Grécia, depois Chile, Rússia, Polônia, Hungria, Estônia, Israel, Brasil, Turquia, Irlanda, Estados Unidos, República Tcheca, Eslováquia, Nova Zelândia, Itália e só depois temos o Japão, bem longe do topo do ranking de países com a maior carga horária de trabalho anual.

Portanto, a questão é: existe uma diferença crucial entre trabalho e arubaito. E olha que, nessa conta, entram as férias remuneradas (que, no Japão, só existem em teoria. Mas isso é assunto pra outro artigo...). O conceito de trabalho no Japão é diferente, e os japoneses encaram a rotina assalariado de uma maneira que poucos países do globo compreendem.

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JAPÃO, 16 DE MAIO DE 2016
Texto: Renato Brandão
Edição: Pocket Hobby

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