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Mitos da vida no Japão: desmistificando a sabedoria popular - Cultural Shock

 #CulturalShock - MITOS DA VIDA NO JAPÃO

Certo e Errado

Desmistificando a Sabedoria Popular


É comum o brasileiro olhar a grama do vizinho e achá-la mais verde do que a cor de sua bandeira, e por isso algumas falácias, endeusando determinadas nações, são repetidas à exaustão por pessoas que nem sequer tiveram contato com a cultura do outro ou, vá lá, não entenderam os diferentes contextos.

Estando no Japão já há três (poucos) anos, vivencio semelhanças e diferenças diariamente. Por isso reuni algumas "frases feitas" cujas respostas verdadeiras talvez tragam surpresa.



"No Brasil faz calor demais! Não vejo a hora de viver em outro país para ter um clima mais ameno..."

ERRADO!

É fato que na terra da presidAnta temos quatro estações: "quente", "muito quente com chuvas de março", "inferno de quente" e "Alexis Texas". Entretanto, estando em cima de um vulcão (aparentemente não tão) adormecido, o Recanto do Imperador Velhinho possui um dos verões mais insuportáveis da face do planeta Mercúrio. Em agosto, as temperaturas chegam a graus estratosféricos. E isso não tem nada a ver com algum Digimon de fogo à mando do Myotismon...



"O Brasil é um país de incultos. Os jovens não ligam para a educação formal (escolar) nem para adquirir cultura. Não desejam crescer na vida. No Japão a coisa é diferente, eles são o futuro desse planeta, todos gênios das exatas... Afinal, enquanto você está aí coçando aonde não bate sol ao ritmo do funk, tem um japonês estudando..."

ERRADO DE NOVO!

Longe de mim afirmar que a maioria dos "jovens" brasileiros hoje em dia é formada por pessoas estudadas, que "correm atrás", leem livros, assistem uma gama diferenciada e ampla de filmes, consomem música de maneira variada e eclética, ou visam se tornar algo "melhor" na sociedade... Sabemos que não é assim, e tais pessoas são a exceção, não a regra. 

Porém, pensar que a juventude japonesa é formada por otakus-nerds de intelecto superior é um grande mito. Simples, puro e infundado sentimento de vira-lata, influenciado muitas vezes pelos méritos de alguns brasileiros descendentes de japoneses extremamente estudiosos...

Já trabalhei como professor numa escola pública japonesa, e presenciei que as crianças em idade escolar recebem amplos conhecimentos sobre História do Japão, língua e cultura nacional, além dos altos índices em Exatas. Contudo, é comum encontrar garotos que mal sabem indicar a localização dos Estados Unidos num mapa, ou que confundem Suíça com Suécia (quem nunca?)... Por sua visão de mundo naturalmente fechada, o povo japonês "esquece" de buscar outros tipos de conhecimento além-mar - e a televisão tem sua parcela de culpa nisso.

Apenas para situar o problema, você por acaso já ouviu a palavra salaryman? Trata-se do "empregado padrão" de terno e gravata, que habita um cubículo minúsculo das oito às cinco (com muitas horas extras semanais), e sai do trabalho direto para a izakaya (bar típico) encher a cara com os colegas de escritório, muito mais por obrigação e etiqueta social/profissional do que por vontade própria.

Esse ritmo de vida, monótono, repetitivo e alienante, é sonho de vida da maioria dos japoneses. A maioria só deseja "ligar o piloto automático" e deixar a vida passar. Existe comportamento mais alienante e inculto que esse?!



"Brasileiro adora ostentar. Compram tênis caríssimos, iTrecos e já saem exibindo... Mas chegam em casa e mal tem arroz com feijão pro jantar. Os japoneses não, a educação deles é diferente. Lá não tem disso..."

TERRIVELMENTE ERRADO

Além de altos índices de segurança pública, a oferta abundante de emprego e os (relativamente!) baixos impostos propiciam um poder de compra elevado e amplo à grande parte da população, o que resulta numa classe média endinheirada e cheia de sonhos de consumo. Um American Dream de olhos puxados.

Uma rápida avaliação no balanço de grifes internacionais mostram o Japão como forte mercado consumidor de produtos de luxo do mundo. É comum encontrar, em Tokyo, Osaka ou mesmo numa vila perdida das montanhas, gente dirigindo Lamborghinis e Maseratis.

Além das roupas de marca, carros top de linha e acessórios luxuosos, alguns possuem não um, mas até TRÊS smartphones ao mesmo tempo (dual chip? Nem pensar! Só no dia em que a Apple inventar um...). No final das contas, basta substituir o feijão pelo nori e pimba! Não há tanta diferença entre brazucas e japas nesse quesito...



"Você assiste Globo? Pois está sendo sugado pelo sistema... A TV brasileira é alienadora. Os jornais são manipulados e censurados, as novelas mentem sobre o padrão e o estilo de vida da população, os programas são apelativos, só tem barraco, é tudo bunda, peito, porrada. No Japão não. Eles são desenvolvidos, não existe controle da mídia e a TV não exerce essa influência pesada." 

ABSOLUTAMENTE NÃO!

A TV brasileira exibe programas de cunho sensacionalista, tendencioso e fútil - os recentes índices de audiência da novela das nove estão aí para provar que certamente há algo errado. A última Helena do Maneco teve um final forçado bem antes do esperado, mas no Japão a bizarrice impera!

Basta procurar na internet pelos vários vídeos inacreditavelmente toscos, pornográficos, de baixo calão da TV aberta japonesa que sua sede por Notícias Bizarras estará rapidamente sanada - aliás, é altamente desaconselhável ligar o aparelho sem ter almoçado: 90% da grade é composta por programas de culinária, anúncios de alimentos e crítica gastronômica. O tempo que sobra é completado por cenários do tempo do Chacrinha, pessoas rindo e noticiários vazios.


Qualquer pessoa que tenha visto mais de dois episódios de (qualquer) anime cuidadosamente percebe o nível de suspensão de descrença necessário para engolir tanta surrealidade.


Mas nem tudo é falácia... Alguns pequenos confortos nesse estilo de vida oriental superam - e muito - o brasileiro...





"Nossa, que [ônibus, metrô, trem, jegue] de m3rd@! Além de super caro, está sempre lotado, desconfortável e sujo. No Japão, primeiro mundo, essa lata de sardinha seria bem diferente..."

EXATAMENTE.

O transporte público de massa em terras orientais é bem diferente da realidade tupiniquim: conforto, higiene, boa funcionalidade e pontualidade não faltam durante qualquer viagem, mesmo que vídeos manipulados sobre os trens de Tokyo tentem mostrar o contrário (quem nunca viu funcionários de estações "socando" pessoas pra dentro dos trens na China e pensou tratar-se do Japão?!).
Excluindo-se o custo por viagem, que nem sempre é "justo" (já pesquisou o preço do Shinkansen?), a própria educação dos usuários faz de uma simples jornada ao trabalho um momento de silêncio (ninguém grita, escuta música sem fones de ouvidos ou conversa ao telefone no interior dos vagões de trem e veículos de transporte público. E todos seguem as regras).

Mesmo viajar de uma cidade a outra, algo sempre cansativo e fisicamente extenuante, se torna a etapa mais fácil no dia de qualquer um. E não se preocupe, pode dormir sossegado, ninguém vai roubar sua mochila.




"Odeio marcar com fulano. Ele sempre se atrasa e 'empaca' o meu dia. Os japoneses são diferentes, a gente vê pela cara..."

CORRETO TAMBÉM

É quase patético, em certas ocasiões, notar que brasileiro e pontualidade não combinam. Quase sempre existirá algum atraso, contratempo, desculpa esfarrapada. Isso já é até piada interna entre tradutores que atendem a comunidade brasileira no Japão: "traduzir pra brasileiro?! Duas horas de espera, dez minutos de trabalho!", é o que dizem. Até certo ponto, nos faz pensar que tal costume está muito mais arraigado do que imaginamos.... 


Os japoneses natos, diferentemente, cumprem à risca seus horários e consideram, inclusive, que "chegar na hora" normalmente significa estar no compromisso cinco ou dez minutos antes do combinado.



"Nossa, que terra mais perigosa esse meu Brasil... É impossível sair de casa sem sentir medo. Felizes são os japoneses, que nem sabem o que é violência..."

CORRETO..... Só que nem tanto.

Salvo raríssimas exceções - bullying nas escolas, pessoas com distúrbios psicológicos graves que cometem atos violentos e passionais, ou mesmo atos da Máfia -, praticamente não existe violência ou criminalidade. Os lugares são tão ridiculamente seguros que, para um brasileiro, vários costumes locais parecem irresponsabilidade ou falta de juízo.

Deixar o carro destrancado, com as chaves dentro, não oferece perigo algum ao seu patrimônio. Provavelmente, ninguém irá pegar nada, ou chegar perto, ou sequer notar que o veículo está ali. Cada um vive a sua vida, sem precisar tomar do outro o que não conseguiu ganhar para si.

A utopia é tanta que as casas não possuem muros divisórios ou portões de garagem e, acreditem, todos dormem despreocupados... A não ser que a terra comece a tremer.





"Mas e o Brasil? Ele tem algo de 'melhor' que o Japão, pelo menos?"

Tem sim

#CulturalSchock - Templo - Monjas - Tenri 1
Vocês se livraram de mim... Por enquanto




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